Extremadura para descobrir calmamente

Aqui onde estamos, no extremo do continente europeu, quase nos sentimos sozinhos, pois se olharmos em frente descobrimos a amplitude do Atlântico, oceano que nos transmite uma sensação de infinito. Mas se olharmos para o lado rapidamente percebemos que ao nosso lado temos um país vizinho com quem partilhamos afinidades e que é dono de um mundo de opções de lazer merecedoras de atenção. Uma delas dá pelo nome de Extremadura, província fronteiriça com Portugal onde fomos descobrir dois hotéis de charme e uma mão cheia de experiências merecedoras de cuidada atenção.

São muitas as regiões que compõem o mapa geográfico de Espanha. Cada uma com as suas especificidades, tradições e cultura, todas têm para oferecer a quem chega inúmeras opções que proporcionam inesquecíveis dias de férias. Uma dessas regiões é a Extremadura que a oeste faz fronteira com Portugal. Foi ela o destino da nossa viagem, ou melhor, uma parte dela, mais exactamente o eixo entre os hotéis de charme Casa Palacio Conde de La Corte e Convento de La Parra.

Primeira paragem:

Casa Palacio Conde de La Corte

A viagem decorreu sem problemas, pelo que um pouco mais de um par de horas depois de termos saído de Lisboa chegámos a Zafra. As ruas estreitas do centro da cidade não estavam preparadas para receber o volumoso veículo que nos trouxera de Lisboa nem tão pouco o GPS estava preparado para lidar elas…pelo que depois de algumas voltas (o que nos aguçou ainda mais a vontade de descobrir a cidade) lá chegámos à primeira etapa da jornada.

Instalada na praça onde também se encontra a câmara municipal de Zafra, o hotel Casa Palacio Conde de La Corte sobressai em primeiro pela fachada que nos transporta de imediato para um universo de requinte, e depois pela imponência do próprio edifício que vimos a descobrir ter sido casa de nobres, mais exactamente de Don Agustín Mendoza y Montero, Conde de la Corte e sua família.

Descarregadas as malas, dirigimo-nos para o lobby. Apesar da beleza da fachada nos ter prevenido para o que poderíamos encontrar no interior do hotel, não estávamos preparados para o que nos recebeu. Nada pretensioso, como numa primeira abordagem poderíamos pensar, Casa Palacio Conde de La corte recebeu-nos como se recebe um amigo, com muita simpatia e encantadora simplicidade. Nas paredes apontamentos que nos lembram estarmos numa das zonas onde as ganadarias e as touradas são uma tradição que ainda hoje se mantém, fotos antigas que trazem até nós um sem-número de gente que ali surge feliz, como que avisando-nos para que deixemos os problemas lá fora e nos permitamos ser felizes aqui, agora. A recepção, fomos encontrá-la no lobby, o mesmo que em tempos foi um pátio aberto e hoje surge coberto por um tecto de vidro por onde a luz entra sem pedir licença, tornando tudo muito mais luminoso.

Resolvidas as formalidades, era hora de descobrir o quarto que nos estava designado e ai a surpresa foi ainda maior, pois não se esperava um daquele tamanho! Verdadeiramente espaçoso, mais parecia um aposento saído de um livro de história, onde a qualquer momento a criada de quarto iria fazer a sua aparição para nos ajudar a vestir e pentear. Transposta a porta para a casa de banho a surpresa não foi menor, pois se o quarto era grande e algo sumptuoso, a casa de banho não lhe ficava de maneira nenhuma atrás. Muito confortável e devidamente equipada, fazia fronteira com um quarto de vestir de áreas mais do que generosas, se tivermos em conta a sua função. Vontade não nos faltava para descalçar os sapatos e ficar por ali num reparador banho de imersão, mas era hora de sair rumo a Zafra, com a intenção de desvendar alguns dos seus segredos.

Passeio antes do jantar

Conhecida por muitos como a pequena Sevilha, Zafra pertence à província de Badajoz. Cidade onde se presentem as muitas influências árabes, judaicas e cristãs, Zafra mostra com muito orgulho todas essas heranças que no computo geral a caracterizam e dão um carácter único. Como sugestão de visita lhe dissemos que não pode perder o antigo convento cristão e a antiga sinagoga, perca-se na Plaza Chica onde deve descobrir o pilar onde está gravada uma barra de medir, com que os antigos comerciantes mediam as telas, atravesse o Arquino de Pane e dirija-se agora para a Plaza Grande, espaço escolhido pelos habitantes para descontraidamente beber um bebida fresca numa das muitas esplanadas ali existentes. De referir que em tempos remotos aquele era um lugar de culto, utilizado posteriormente para a realização de touradas. Termine o périplo, tal como nós, no Museu de Santa Clara, não sem antes passar pela Puerta de Jerez, a única intacta e por onde chegavam os comerciantes oriundos de Jerez de Los Caballeros.

Gastronomia e simpatia      

De regresso ao hotel e antes de um jantar que se avizinhava inesquecível, fomos tentar perceber um pouco mais a história do hotel antes de o ser. Ficámos a saber que foi construído 1840, tendo sido durante décadas mora da família de Don Agustín Mendoza y Montero e que em meados do século passado foi transformado num importante centro para o desenvolvimento e incremento da tauromaquia (actividade económica de grande importância na região e à qual a família de Don Agustín sempre esteve ligada). Antes de ser o que hoje vemos, o edifício foi objecto de um importante objecto de restauração, mas nem por um momento se perdeu o espírito base da antiga casa de família, pois foram mantidos e respeitados os detalhes históricos e arquitectónicos que transportam o espírito ganadeiro dos antigos proprietários. Para fazer sobressair toda a beleza do espaço, foi dada um particular atenção às cores e à iluminação dos espaços, que se revelam confortáveis e apelativos. Um pormenor interessante é o facto de a cada aposento ter sido dado o nome de uma ganadaria, como que uma homenagem à actividade que desde sempre serviu de base à economia da região e à vivência do seu povo.

Mas não se pense que ali não há nada para fazer, se optar por essa via está no seu direito, mas os mais activos também podem solicitar uma bicicleta e partir à descoberta dos arredores, pegar num livro e saboreá-lo página a página na biblioteca, pedir para tomar um café ou uma bebida fresca no terraço ou porque não, refrescar-se na piscina do hotel.

Devidamente recompostos, era hora de repor energias num jantar que seria servido no restaurante Barbacana. Vizinho do hotel revelou-se o complemento certo à estada na Casa Palacio Conde de La Corte, sendo que pela mesa naquela noite memorável desfilaram iguarias como um fabuloso sortido de enchidos ibéricos, uma salada de polvo confitado, um carpaccio de porco ibérico, a lasanha de salmão fumado com alho e cogumelos e uns deliciosos lombinhos de porco ibérico com batatas à carbonara e salada de cereja. De água na boca? Acreditamos que sim…imagine agora terminar este repasto com uma cúpula de chocolate branco com recheio de morangos e menta…uma experiência gastronómica inesquecível…para nós e para a balança, como pudemos constatar no regresso a casa!

Segunda paragem:

Convento de La Parra

Acordar ao som do canto dos pássaros não acontece todos os dias, a não ser que se viva no campo ou se esteja em Zafra. Na verdade, a fuga da rotina é aqui conseguida e em cada manhã isso é sentido no corpo, que renasce descansado e tranquilo para mais um dia de descobertas. Depois de um reparador pequeno-almoço, era hora de fazer as malas e partir em direcção à próxima paragem, o hotel Convento de La Parra.

No caminho tivemos o privilégio de conhecer umas das mais castiças ganadarias da região, Ganadaria Torrete, cujos donos, Yolanda e Francisco Meléndez nos oferecem um simpático almoço servido no alpendre da casa principal e nos levaram numa visita pelos campos onde tomámos contacto com os animais, com óbvio destaque para os touros.

Temos que confessar que chegar ao Convento de La Parra, foi o realizar de um desejo antigo, pois temos acompanhado durante anos a evolução e o trabalho desenvolvido por esta unidade hoteleira, ilustre membro da Arteh Hotels and Resorts Datado do século XVII, o convento que em tempos recuados recebeu a Ordem de Santa Clara, continua a surgir hoje como um refúgio de paz. Mas, passados todos estes séculos hoje em vez de obedientes e enclausuradas freiras, acolhe forasteiros que vindos um pouco de todo o lado ali chegam com uma vontade férrea de se dedicarem de corpo e alma ao descanso. Não foi fácil transformar um convento de linhas rígidas e semblante fechado num hotel de charme que cativa pelo requinte e vicia pelo conforto. Mas a verdade é que tal proeza foi alcançada, e passado todos estes anos La Parra tem uma palavra a dizer quando falamos de hotéis de charme em Espanha. A contemporaneidade do design convive sem qualquer tipo de stress com os elementos que nos recordam as antigas funções do edifício. A simplicidade foi mantida, mas melhorada com a junção de detalhes que fazem toda a diferença, como os tecidos da roupa de cama e dos atoalhados e o conforto dos colchões e cadeirões. Quando chegámos e tentámos perceber todas as comodidades tecnológicas às quais já estamos habituados olhámos à nossa volta e pensámos: onde está a televisão? Pois, desde já o avisamos que não existem televisões em La Parra, quer dizer, existe apenas uma, instalada numa das salas de estar do hotel.

Os quartos, dispostos em redor do antigo claustro do convento, encontram-se instalados nas antigas celas. Pequenos em tamanho vêm a revelar-se grandes em conforto e tranquilidade. O branco imaculado preenche paredes e tectos, trazendo para dentro de cada aposento ou espaço comum a luz que naturalmente eles não possuem. Nos materiais usados destacam-se o barro, a madeira e o ferro, numa simbiose perfeita.

Fazia algum frio pelo que não tivemos a necessária coragem para molhar nem sequer os pés, mas quem visite o hotel durante os quentes meses de Verão pode molhar não só os pés, mas todo o corpo na simpática piscina, instalada na zona onde em tempos idos as freiras tinham a horta do convento. Em seu redor apelativos colchões pedem a nossa atenção, oferecendo momentos da mais pura evasão.

Já o antigo refeitório continua a manter uma relação de grande proximidade com a comida, pois é hoje a sala de jantar do hotel. A mesma onde pudemos nessa noite saborear um jantar digno…de freiras, mas que roçava os contornos do pecado! As hostilidades tiveram início com um saboroso queijo de cabra gratinado com maça e passas, tiveram continuação com uns maravilhosos croquetes de morcela e o tradicional solmorejo (espécie de gaspacho semelhante a um puré) e umas almôndegas de porco ibérico, e terminaram com uma crema fria de arroz com leite e canela.

Passeio antes da partida

Depois de uma noite de divinal e merecido descanso, arrancámos para a última paragem antes de seguirmos viagem de regresso a Lisboa. O destino foi conhecer na localidade de Salvatierra de los Barros, o Museu do Barro e uma das mais tradicionais olarias da região, além do antigo castelo e convento de Santa Maria de Jesus. Mas os apreciadores da Natureza no seu estado mais puro podem, depois de calçar calçado confortável, aventurar-se pelos campos verdejantes onde têm a possibilidade de tomar contacto com um meio natural por explorar e cheio de maravilhosos detalhes merecedores de atempada descoberta.

A Extremadura é isto, um misto de experiências variadas e que juntas oferecem a possibilidade de umas férias diferentes. Tal como o lema desta viagem, também os turistas aprendem ali a “vivir de espacio”.

Por Sandra M. Pinto

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