A revolução da minissaia por Mary Quant

“A moda não é frívola, é uma parte da vida”. Com ideias como esta, Mary Quant tentava vincar a importância das suas criações na mudança cultural que estava em marcha, no Reino Unido dos anos 1960. As bainhas iam subindo, as mentalidades iam crescendo.

Em 2018, o V&A lançou a campanha #WeWantQuant, para recuperar criações antigas de Mary Quant. No meio de 800 respostas, recolheram 35 peças de 30 pessoas que tinham guardado criações originais de Quant. Juntamente com as suas histórias, emprestaram as peças vintage ao museu para integrá-las na exposição que agora abre ao público – a primeira retrospetiva dedicada ao trabalho de uma das mulheres mais inspiradoras dos anos 1960.

Contra o cinzentismo e formalismo, os sixties trouxeram consigo a revolução para rasgar a depressão do pós-guerra. Mary Quant tratou de estendê-la ao guarda-roupa feminino. O mesmo é dizer que fez implodir mentalidades e revolucionou a forma de estar da mulher (primeiro no Reino Unido, mas a revolução atravessou oceanos e seduziu vedetas de Hollywood como Marlene Dietrich e Katherine Hepburn).

Nos modelos de Mary Quant, a mulher não receava as bainhas subidas nem as cores garridas dos collants. E se é verdade que a minissaia foi uma das suas criações mais reconhecidas, não se esqueça os calções muito curtos nem as calças masculinas ou as golas vistosas.

10th November 1964: Clothes designer Mary Quant, one of the leading lights of the British fashion scene in the 1960’s, having her hair cut by another fashion icon, hairdresser Vidal Sassoon. (Photo by Ronald Dumont/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images)

Quant inspirou as jovens, porque lhes mostrou o caminho de fuga ao guarda-roupa tradicional e conservador. Inspirou as mulheres trabalhadoras, porque também ela lutou para construir uma empresa de sucesso. Inspirou o mundo da moda, porque mostrou como ela podia ser acessível, ao contrário das criações muito exclusivas que vinham de Paris.

O feminismo dispensava o nome. O que estava em causa era a libertação da mulher, era quebrar com o padrão imposto pela sociedade. Uma mudança cultural a ser promovida pela moda, que pretendia tornar o mundo das mulheres mais inclusivo. Dizia-se que os vestidos curtos de Quant permitiam às mulheres movimentos mais livres, como correr para apanhar o autocarro. Jenny Lister, co-curadora da exposição, explica que Quant vestiu “a mulher livre”, livre “de regras e regulamentos e de se vestir como a sua mãe”.

Mary Quant tornou-se ela mesma um ícone dessa revolução costurada ponto a ponto. Primeiro, abriu uma pequena boutique – Bazaar –em King’s Road (Chelsea), em 1955, e é justamente essa a primeira paragem desta exposição. Vieram depois as linhas de roupa interior e meias, os cosméticos e até uma coleção de bonecas (a rivalizar com a Barbie). As técnicas de produção em massa ajudaram a difundir o seu nome.

Quant usava o cabelo perfeitamente cortado, uma franja geométrica e eyeliner carregado. A imagem faz lembrar a modelo Twiggy, que também foi vestida pela criada. Mary Quant fez questão de ser embaixadora da sua marca e usou a energia, juventude e empreendedorismo para inovar, como fez quando lançou para as ruas de Londres o Beauty Bus, um autocarro de dois andares para promover os seus cosméticos.

O V&A reuniu 200 peças, desde roupa a cosméticos e outros objetos que fizeram parte do universo de Mary Quant, entre os quais um vestido feito para o 21.º aniversário de uma das pessoas que acedeu à campanha #WeWantQuant. Como retrato de época, recuperam-se fotografias de modelos de Quant a posar com guardas britânicos, em 1966. E o contraste é evidente, como também foi óbvio que a revolução tinha vindo para ficar. Uma revolução a partir da moda. Porque, como dizia Mary Quant, a moda não é frívola, é uma parte da vida.

A vida e a obra da impulsionadora da minissaia são agora alvo de retrospetiva no Victoria & Albert Museum (V&A), até 19 de Fevereiro de 2020.

Por Filipa Moreno

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